Sem pressão da pandemia, emprego volta a ganhar força

Sem pressão da pandemia, emprego volta a ganhar força

Publicado em 1 de junho de 2022

Desemprego cai em abril, mas deve piorar no segundo semestre.

O mercado de trabalho seguiu surpreendendo analistas em abril. Ainda que as projeções contemplem uma piora a partir do segundo semestre, em linha com a desaceleração da economia mais ampla, os números melhores que o esperado já fazem alguns colocarem viés positivo para o desemprego no fim do ano.

Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua, a taxa de desemprego caiu de 11,1% no trimestre encerrado em março para 10,5% em abril, informou o IBGE. Assim, 11,349 milhões brasileiros ainda seguem desempregados no país. O resultado ficou abaixo do piso das projeções colhidas pelo Valor Data, que ia de 10,7% a 11,2%, com mediana em 11,9%.

Na comparação com o trimestre anterior, o número de desempregados caiu 5,8%, para 11,349 milhões. É o menor nível desde o início de 2016. Já a população ocupada avançou 1,1% para 96,5 milhões, o maior número da série da pesquisa, iniciada em 2012.

Coordenadora de pesquisas por amostra de domicílios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Adriana Beringuy ressaltou que o crescimento da população ocupada vem se espalhando entre as diferentes atividades econômicas e permanecendo em alta nos primeiros meses do ano, contrariando a sazonalidade esperada.

Em sua avaliação, isso reflete alguma retomada de funcionamento da economia mais próximo da normalidade, com menos efeito da pandemia. “As atividades de tecnologia da informação davam infraestrutura necessária para a economia nesse ambiente mais virtual. Agora, sobretudo no segundo semestre, observa outras atividades com sinais na ocupação, como serviços”, disse.

A despeito da melhora, o nível da ocupação (proporção de pessoas ocupadas dentro da população em idade de trabalhar) ainda está em 55,8%. Em 2014, essa marca chegou a 58% e em 2015, a 57%.

O economista da MCM Consultores Caio Napoleão chama atenção para o fato de que a taxa de desemprego caiu a despeito de uma rápida recuperação da taxa de participação no mercado de trabalho. “Essa queda na taxa de desocupação vinha ocorrendo muito às custas de uma força de trabalho que permanecia estável, bem como uma taxa de participação que estava parada perto de 62% desde o terceiro trimestre do ano passado, feito o ajuste sazonal, um ponto abaixo do patamar pré-pandemia”, diz. “Só que houve uma forte correção no último mês, a taxa de participação voltou a 62,7%. Ainda assim, a população ocupada cresceu a ponto de mais que compensar isso”, ressalta.

Segundo Napoleão, um dos fatores que podem ter ajudado a taxa de participação a dar um salto no mês foi a volta às aulas presenciais, que liberou ao mercado de trabalho mães que antes acabavam ficando em casa para cuidar dos filhos. “Esa é uma hipótese forte, porque a taxa de participação estava mais defasada em relação a mulheres do que homens”, nota.

Para Tiago Barreira, economista do iDados, a melhora do mercado ainda tem algum espaço para correr, dado que a força de trabalho ainda não retomou os patamares anteriores à crise da covid. Ainda assim, essa tendência deve perder alguma força, dado que a taxa de participação já está próxima da observada no nível pré-pandemia – 62,4% atualmente, contra 63,7% registrados no fim de 2019.

Barreira lembra também que a taxa de participação pode se estabilizar acima dos níveis vistos antes da pandemia, dado que, por causa de questões como a reforma da Previdência, que incentivou as pessoas a se manterem por mais tempo no mercado de trabalho, a taxa de participação pode estar em tendência estrutural de alta.

Nos cálculos do Santander, a taxa de desemprego em mensal caiu a 9,4% em abril, feito o ajuste sazonal. Esta é a primeira vez que o indicador cai abaixo dos dois dígitos desde dezembro de 2015. E, apesar de prever uma desaceleração da geração de vagas na segunda metade do ano, afetada por questões como o aperto monetário conduzido pelo Banco Central, o resultado de abril coloca um viés positivo para a projeção do banco para o mercado de trabalho brasileiro. No momento, a estimativa para a taxa média em 2022 é de 12,7%, mas o número se encontra em revisão.

O viés de melhora para a taxa de desemprego também é o caso na MCM, cuja estimativa atual é de 10,2%. “São números que estão em jogo ainda, dado que os dados recentes sinalizam algo melhor”, diz Napoleão.

Na outra ponta, a Tendências avalia que a melhora observada nos últimos meses é “fruto de uma volta à normalidade da pandemia”, e não uma mudança na dinâmica do mercado. Em relatório a clientes, o economista Lucas Assis pondera que a alta da taxa de juros, bem como incertezas políticas internas e a desaceleração global esperada na segunda metade do ano devem reverter a trajetória atual, fazendo a taxa desemprego chegar a dezembro em 10,8%.

Fonte: Valor Econômico
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