17 maio Serviços com uso intensivo de trabalho sustentam inflação
Serviços com uso intensivo de trabalho sustentam inflação
Com alta de 6,82% em 12 meses, a maior desde 2017, segmento pode impactar demais preços.
Na máxima em seis anos, a inflação dos serviços intensivos em trabalho, que incluem atividades como empregado doméstico, cabeleireiro, médico e dentista, traz um sinal de alerta para a desaceleração dos preços da economia brasileira e também para o efeito de novas medidas do governo de estímulo ao consumo.
Em 12 meses até abril, os serviços intensivos em trabalho acumulam alta de 6,82%, o maior nível desde julho de 2017, quando registravam 6,98%, aponta o Barclays. “Vemos que essa é uma categoria que tem ficado pressionada nas últimas leituras”, diz Roberto Secemski, economista-chefe para Brasil do banco Barclays.
Os serviços intensivos em trabalho representam pouco menos de 20% dos serviços totais no IPCA e têm peso de 6% no indicador cheio. Embora sua representação direta no índice seja limitada, chama a atenção que esses preços não estão cedendo nem gradualmente, na contramão dos serviços gerais, e podem indicar contaminação para outros itens.
Por exemplo: serviços como de garçom ou mecânico não estão incluídos nesse grupo, mas é sabido que pesam na formação dos preços, respectivamente, da alimentação fora de casa e de consertos de veículos, exemplifica Secemski.
“Mostra uma dinâmica que premia o mercado de trabalho como um todo e que, cedo ou tarde, pode vir a se manifestar em outros preços sob a forma de pressão de custo”, afirma.
Outro problema, segundo Secemski, é que a experiência passada indica que, se essa inflação não é combatida logo, ela se perpetua. Entre 2009 e 2016, a inflação dos serviços intensivos em trabalho rodou, na média, em quase dois dígitos (9,7%) e foi preciso uma recessão forte para fazer esses preços desacelerarem, lembra o economista. “Existe sempre o risco de ficar preso em uma dinâmica ruim, dada a inercialidade dessa categoria. Isso é verdade para os serviços em geral e mais ainda para aqueles em que a mão de obra é o componente principal”, afirma.
Há um ano, ressalta Secemski, a inflação acumulada em 12 meses dos serviços intensivos em trabalho estava quase três pontos percentuais abaixo do observado atualmente, em 4%. “Se houver uma cristalização da pressão, se ficar nesse nível [de quase 7%], é muito mais difícil de combater depois. Quanto mais tempo passa com um número alto, mais arraigado fica”, diz.
Em sentido oposto, no entanto, o governo tem tomado atitudes que podem pressionar ainda mais esses preços, seja pelo lado da oferta desses serviços, com o reajuste do salário mínimo, seja pela demanda por eles, conforme a renda disponível para consumo das famílias aumenta com isenção maior no Imposto de Renda, pagamentos adicionais do Bolsa Família e reajuste para servidores.
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Neste mês, o governo confirmou novo aumento real do salário mínimo para 2023, de R$ 1.302 para R$ 1.320, além da intenção de dar aumentos reais também nos próximos anos, acrescentando o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos antes ao reajuste pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) do ano anterior.
Para este ano, o novo valor já determinado implica um aumento de 2,8% acima da correção pelo INPC do salário mínimo de 2022, nota o Safra. Já para 2024, se confirmada a projeção do banco de 5,3% para o INPC, o crescimento do salário mínimo seria de 8,2%, já incorporando no cálculo o crescimento do PIB de 2022, de 2,9%, como indica a regra sugerida pelo governo.
O Safra calcula que, a cada ponto percentual de ganho real do salário mínimo, a inflação de serviços subjacentes (aqueles mais ligados à atividade) sobe em cerca de 0,3 ponto percentual, e o IPCA, um pouco mais de 0,05 ponto. Assim, dizem, um aumento real do salário mínimo em 2,9% no próximo ano impactaria a inflação em torno de 0,15 ponto ao longo de 12 meses. E isso sem contar o efeito do ganho de rendimentos sobre o consumo, que pode se refletir em pressão altista não apenas para serviços, mas em todos os preços livres.
“A combinação de aumentos reais do salário mínimo já implementados, da possibilidade de novos aumentos daqui a sete meses na magnitude proposta, de um mercado de trabalho ainda apertado e da inflação dos serviços intensivos em mão de obra no nível atual de 7% inspira cuidados”, diz Secemski.
Há espaço para mais pressão também porque a maior “folga” no custo unitário do trabalho (CUT) tem se dado justamente nos setores intensivos em mão de obra, aponta o Bradesco. O CUT mede o custo do trabalhador por unidade de produção. Seu cálculo é uma razão entre os salários reais médios pagos e a produtividade da economia. Quanto menor o CUT, menor o custo para as empresas adicionarem trabalhadores ao seu processo produtivo.
Após uma forte queda durante a pandemia, o custo unitário geral voltou para os níveis pré-pandemia, mas segmentos como bares, restaurantes e hotéis ainda estão 13,6% abaixo, e serviços domésticos, quase 24% aquém.
“Os estímulos de renda vindos das políticas públicas e o nível ainda reduzido do custo unitário em setores especialmente sensíveis a esses estímulos devem manter a ocupação crescendo no curto prazo. O efeito líquido desses fatores, em nosso cenário, é um crescimento ainda importante da economia não agrícola nesse primeiro semestre do ano e continuidade dos ganhos reais de renda”, diz o economista do Bradesco Vitor Vidal.
Andrea Ângelo, economista-chefe para inflação da Warren Rena, espera que os preços dos serviços intensivos em trabalho comecem a cair a partir de julho, encerrando o ano em 5,8%.
Na média móvel de três meses anualizada e dessazonalizada – uma forma de suavizar movimentos mensais, mas ainda captar a tendência “na ponta” de modo mais dinâmico do que a variação em 12 meses -, houve desaceleração da inflação desses serviços entre março e abril, de 6,68% para 5,71%, segundo Ângelo.
“Vendo hoje as notícias sobre salário mínimo, R$ 150 por filho no Bolsa Família, essas coisas colocam em xeque as projeções”, pondera.
Em um momento em que o Banco Central tenta, desde o ano passado, controlar a pressão sobre preços através de uma política monetária restritiva, essas medidas podem caminhar na direção contrária, observa Secemski. “O custo de controlar isso, uma vez que esse processo se torna arraigado, é muito mais alto.”
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