20 abr Setor de TI puxa onda de demissões voluntárias
Setor de TI puxa onda de demissões voluntárias
País tem recorde de pedidos de desligamento em 2022.
Cantada até pela diva pop Beyoncé, nos versos da canção “Break my soul”, a grande onda de pedidos de demissão identificada primeiro nos Estados Unidos, onde foi chamada de “great resignation”, se alastrou pelo Brasil no ano passado, puxada pelos profissionais de tecnologia da informação (TI).
Dados do Ministério do Trabalho indicam que 6,9 milhões de brasileiros pediram demissão no ano passado, o que representa um recorde histórico, de acordo com levantamento da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan).
No Brasil, a tendência de desligamentos voluntários foi particularmente relevante num segmento específico, formado por profissionais jovens, da área de tecnologia, e com nível superior. Para profissionais com esse perfil, 73% dos encerramentos de contratos de trabalho em 2022 foram voluntários.
“A ‘great resignation’ aconteceu de fato no Brasil, mas foi para poucos. Ocorreu principalmente entre as pessoas que têm nível mais alto de instrução e são associadas a trabalho de alta especialização”, resume o gerente de Estudos Econômicos da Firjan, Jonathas Goulart. “Quando olhamos o mercado de trabalho de uma maneira agregada, sem exatamente esse perfil de profissional que é de nível superior, jovem e trabalha na área de tecnologia, não vemos diferença no que acontece no ciclo econômico [usual].”
Já nos Estados Unidos, os desligamentos voluntários se espalharam por diversos setores da economia. Informações compiladas pelo Escritório de Estatísticas do Trabalho dos Estados Unidos mostram que, entre abril de 2021 e o mesmo mês de 2022, 71,6 milhões de trabalhadores deixaram seus empregos. A média de pedidos de demissão no período foi de 3,98 milhões por mês, com um pico de 4,5 milhões de desligamentos voluntários em novembro de 2021.
A tendência transbordou inclusive para além do debate econômico. Em reportagem publicada em junho do ano passado, o Wall Street Journal” afirma logo no título que “Break my soul” (Quebrar minha alma, em tradução livre) inspirou trabalhadores a deixarem seus empregos. O texto discutia se pedir demissão naquele momento era uma boa ideia.
O trabalho remoto e seus desdobramentos – como a comunicação por meio de aplicativos de videoconferência – pode potencializar fatores por detrás da chamada “demissão silenciosa”, aquela em que o empregado não dá qualquer mostra prévia de sua insatisfação, alerta Fabiano Kawano, diretor da operação brasileira da empresa internacional de recrutamento de executivos Robert Walters.
“A cultura [da companhia] acaba se perdendo. O profissional não tem carinho pela empresa, pelas pessoas que trabalham com ele”, sustenta Kawano.
“Sem comunicação, proximidade e empatia, aumenta a chance de a pessoa olhar apenas para a última linha do contracheque [na hora em que recebe uma proposta].”
Entre as empresas brasileiras de TI a adoção do trabalho remoto – a partir da chegada da covid-19 ao Brasil, em fevereiro de 2020 – foi um divisor de águas. A possibilidade de trabalhar em diferentes horários e locais ampliou as oportunidades no segmento, sustenta Gerino Xavier, vice-presidente da Federação Nacional das Empresas de Informática (Fenainfo). “Algumas pessoas que estão em home office têm mais de um emprego. Um com carteira assinada e um segundo contrato por job [tarefa]”, conta ele.
Dono de uma firma de serviços de TI, Xavier conta que foi obrigado a rever a decisão – tomada por seu sócio – de retomar ainda em 2021 o trabalho presencial na empresa. “Perdemos cinco engenheiros em uma semana”, lembra o vice-presidente da Fenainfo. Também não faltam exemplos de profissionais que pedem demissão para fundar startups, acrescenta ele.
Mesmo quem deixa um emprego com carteira assinada para trabalhar por conta própria em TI consegue, na média, remuneração maior, aponta o levantamento da Firjan. Enquanto quem atua por conta própria em tecnologia da informação recebeu remuneração de R$ 5.908 no ano passado, a atividade com carteira assinada rendeu R$ 5.399 e, sem carteira assinada, de R$ 5.157.
No caso específico dos engenheiros de computação, o salário de admissão foi de R$ 13,28 mil no ano passado, o que representa um aumento de 18,5% em relação a 2021. A taxa de expansão é a mais alta no ranking de salários de admissão elaborado pela Firjan. À questão salarial se somam fatores como a preferência por novas modalidades de trabalho, a globalização do mercado laboral e o desejo por maior equilíbrio entre trabalho e a qualidade de vida.
Embora o setor de tecnologia passe por ajustes na sua força de trabalho, evidenciados por demissões na Meta, Alphabet (controladora do Google) e Microsoft, entre outras empresas, o gerente de Estudos Econômicos da Firjan sustenta que os cortes de pessoal ainda não se traduziram numa redução da demanda por profissionais de TI. “Para o profissional de TI, como um todo, nós não temos visto ainda esse cenário de ajuste. Ele continua tendo uma demanda muito elevada”, afirma Jonathas Goulart.
Entre 2012 e 2022, o total de pessoas ocupadas na área de TI no país cresceu 75,8%. Passou de 890 mil para 1,6 milhão no período, pelos cálculos da Firjan, baseados em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nesse mesmo horizonte de tempo, o contingente de pessoas ocupadas que atuam em todos os outros segmentos profissionais aumentou 12,3%.
Ainda assim, há escassez de mão de obra. “Como grande parte das empresas deste segmento, enfrentamos dificuldades para atrair e reter este público devido à expansão do segmento de tecnologia nos últimos anos”, reconhece Marcos Mendes, diretor de Pessoas e Cultura da Oi.
Na tentativa de contornar essa dificuldade, a operadora de telecomunicações criou cinco programas de formação de profissionais juniores, inclusive um que oferece bolsas de 50% para colaboradores interessados na transição de carreira para a área de análise de dados.
De acordo com o estudo da Firjan, em 2021 foram ofertadas pelas instituições de ensino superior dois milhões de vagas para cursos de tecnologia da informação e comunicação (TIC). Na comparação com 2010, esse total mais do que quintuplicou.
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