Setores tradicionais se movimentam para atrair os mais jovens

Setores tradicionais se movimentam para atrair os mais jovens

Publicado em 31 de julho de 2023

Pesquisa exclusiva aponta que a indústria da construção perde currículos da geração Z para segmentos como TI e finanças.

Longe da atração natural que áreas como tecnologia e digital exercem em profissionais mais jovens, setores tradicionais como construção civil e seguros se movimentam para chamar a atenção de talentos em início de carreira. As ações incluem busca ativa de candidatos em universidades, programas de desenvolvimento “on the job” (no dia a dia do trabalho), além de estágios turbinados em nichos fora das atividades principais das organizações, como recursos humanos, comunicação e biblioteconomia. As iniciativas chegam em boa hora.

De acordo com pesquisa global da empresa de auditoria e consultoria BDO, obtida com exclusividade pelo Valor, a indústria da construção está perdendo terreno na disputa por currículos da geração Z – nascidos entre 1995 e 2010 – para segmentos como finanças, tecnologia e ciências biológicas.

 O levantamento aponta que 50% dos gestores do setor encontram “grandes” dificuldades para atrair e reter profissionais de faixas etárias mais baixas, 14% descrevem o preenchimento dessas posições como “muito difícil” e somente 16% não veem obstáculos para recrutar jovens talentos. O estudo ouviu 714 pessoas, sendo 336 tomadores de decisão em empresas e 378 universitários, em nove mercados, como Estados Unidos, Canadá e Brasil, entre o final de 2022 e o primeiro trimestre de 2023. “Os dados apontam para um desafio, que é atrair mão de obra qualificada”, analisa Diego Bastos, sócio líder da BDO no segmento de real estate. “A construção civil não está entre as carreiras mais populares para os jovens e quase um terço dos pesquisados [29%] afirma não ter interesse em ingressar na área.”

Bastos destaca que a falta de engajamento de profissionais novatos aparece também em outras indústrias, além da construção, e pode escalar. “O entrave de envolver as próximas gerações será mais comum”. São pessoas movidas por causas, como a preocupação com o meio ambiente e a sustentabilidade, diz. “Além disso, colocam a saúde mental e física no trabalho acima dos ganhos financeiros.”

O relatório da BDO indica que os ofícios com mais apelo para a geração Z estão ligados à tecnologia, mídia e telecomunicações (42%); ciências e farmacêutica (41%) e finanças (37%) – bem acima do índice de interesse em carreiras na construção (28%).

Para combater a falta de “compatibilidade”, a orientação de Bastos para as construtoras é desfazer os mitos sobre a área, como o impacto negativo no meio ambiente, percepção apontada por 32% dos entrevistados. “É preciso expandir a visão a respeito das atividades disponíveis e explorar a força positiva do segmento na corrida pela descarbonização”, sugere.

Essa reviravolta na impressão dos iniciantes pode provocar um “match” perfeito: metade das empresas de construção ouvidas no estudo – que inclui 19 lideranças no Brasil – pretende aumentar o número de funcionários em 2023.

Na Direcional, incorporadora e construtora especializada em habitação econômica com 7,8 mil funcionários, não há gargalo na contratação, mas surgem entraves na retenção da geração Z. “Não temos dificuldades de atração porque abrimos possibilidades em todas as áreas”, explica Valéria Plata, diretora de desenvolvimento humano da Direcional Engenharia. O obstáculo para a retenção desse grupo geralmente acontece porque há um desejo maior de mudanças rápidas na carreira, analisa. Do total de funcionários da empresa, 2,1 mil (27%) são da geração Z. “Em uma organização com muitas oportunidades, a maturidade técnica e profissional influencia os movimentos [de ascensão].”

De olho no turnover dos mais jovens e pela necessidade de pessoal em diversas operações no país, a construtora relança este ano um programa criado em 2018 que pretende acompanhar de forma intensiva o desenvolvimento de funcionários em posições de entrada. Conhecido como “Protagonize”, oferece capacitação em métodos construtivos, com foco em competências “on the job” e feedbacks trimestrais. “Envolve divisões como suporte, engenharia de produção, incorporação e vendas, com etapas que facilitam o encarreiramento”, detalha.

Plata diz que há busca ativa de candidatos em universidades, com a realização de palestras. “[A universidade] é um momento importante para o estudante, que define ali suas preferências profissionais”, explica. “Entender o que a empresa oferece e como é a rotina de trabalho é fundamental para atrair a atenção [desses perfis].”

Com a ajuda do programa “Protagonize” e oportunidades de ingresso como estágios e seleções de aprendizes, o número de contratados na geração Z passou de 14 em 2018 para 179 em 2021, e chegou a 702, no ano passado. Temos ainda mais profissionais dessa faixa captados em contratações orgânicas nas obras, diz.

Na Passarelli Engenharia, com três mil funcionários, sendo 21% da geração Z, os estágios foram repaginados em 2022, com duas trilhas de aprendizado: para universitários de engenharia, com planos de sucessão na área; e voltados para estudantes de todas as vertentes do conhecimento, como arquitetura, administração e recursos humanos, com a intenção de formar mão de obra especializada.

Recrutar os mais jovens não é mais difícil do que admitir currículos com janela, compara Lúcia Menezes, diretora de recursos humanos da Passarelli. “No entanto, a vivência no ramo da engenharia é importante”, diz. “Manter programas de sucessão e estágios, em que jovens ainda sem bagagem possam aprender, na prática, com colegas experientes, é essencial para a perenidade da empresa.”

Em 2022, o grupo recebeu 24 estagiários e efetivou 8, enquanto em 2023, até junho, de 21 estagiários, 7 entraram no quadro. Menezes lembra que, entre os currículos mais difíceis de serem garimpados estão os de áreas fora do “core business” da companhia, como comunicação e biblioteconomia. “Como uma empresa de engenharia, é desafiador demonstrar para os candidatos as chances de atuação e crescimento em um setor que não é o que eles imaginavam atuar”, explica. “Assim, competimos com empregadores das áreas em que eles estudam e do segmento ‘tech’, que faz parte do imaginário dos mais jovens.”

Fonte: Valor Econômico
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