Sindicalismo independente começa a surgir no México

Sindicalismo independente começa a surgir no México

Publicado em 4 de fevereiro de 2022

Funcionários de uma fábrica da GM trocaram um sindicato tradicional – que mais atendia os interesses dos patrões – por um grupo de oposição liderado pelos trabalhadores da unidade. A mudança pode afetar salários e custos para as empresas no México.

Trabalhadores de uma fábrica da General Motors no México votaram de forma esmagadora a favor de um sindicato novo e independente, em uma eleição que foi acompanhada atentamente e pode instigar uma mudança radical nas relações trabalhistas de todo setor manufatureiro do país.

A votação, vista como um importante teste para uma reforma trabalhista no país, assim como para as disposições do acordo de livre comércio entre EUA, México e Canadá (USMCA na sigla em inglês), marca um fato raro no México, em que funcionários trocam um sindicato tradicional por um grupo de oposição liderado pelos trabalhadores de uma fábrica.

Seu sucesso pode ter implicações mais amplas para os direitos trabalhistas – e para os custos trabalhistas – no setor automobilístico, que é chave para o país, e no setor manufatureiro em geral.

“Todo o setor manufatureiro e todo o país deveriam prestar muito mais atenção ao que acontece na GM”, disse Carlos Capistrán, economista do Bank of America Securities. “Esta é uma das coisas que determinarão a dinâmica do mercado de trabalho por muitos anos no México.”

Embora tenha sido prejudicado pela pandemia e pela escassez de chips semicondutores, o setor automotivo do México recebe bilhões de dólares de fabricantes atraídos pela proximidade do país com o enorme mercado dos EUA e por seus custos trabalhistas relativamente baixos e estáveis.

O setor industrial representa cerca de 16% do PIB. Esse sucesso é parte do que provocou a ira do ex-presidente americano Donald Trump contra o país em sua campanha para a Presidência e durante seu mandato.

Segundo especialistas, durante anos os salários em muitas partes do México foram achatados pelos chamados sindicatos de “proteção” ou “fantasmas”, que muitas vezes fechavam acordos de negociação coletiva com empresas sem a aprovação dos trabalhadores.

“O sindicato sempre… apoiou a fábrica, nunca apoiou os trabalhadores”, disse María Alejandra Morales Reynoso, secretária geral do Sindicato Nacional Independente de Trabalhadores da Indústria Automotiva (Sinttia), que venceu a eleição na GM. “O que queremos é representar os trabalhadores”, disse ela antes da votação.

Em 2019, o Morena, partido do presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, aprovou uma reforma trabalhista para promover sindicatos independentes. A nova lei foi reforçada por disposições do USMCA, que substituiu o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) em 2020.

O governo do presidente Joe Biden, que apoia abertamente os sindicatos nos EUA, proporcionou apoio financeiro para ajudar a implementar reformas no México, entre elas a adoção de um novo sistema de justiça trabalhista.

O caso da GM se tornou um foco crítico quando o governo dos EUA pediu ao México uma avaliação com base no USMCA, para verificar se havia entraves à liberdade de associação dos trabalhadores.

Dos quatro sindicatos que disputaram a eleição desta semana em Guanajuato, no centro do México, dois eram ligados a grupos sindicais mexicanos tradicionais, enquanto o vencedor, Sinttia, era independente e tinha apoio de sindicatos dos EUA e do Canadá. Segundo o governo, mais de 4.000 trabalhadores votaram no Sinttia e a participação foi de quase 90%.

Em um comunicado, a GM classificou a votação de um “exercício democrático sem precedentes” e declarou que, assim que fosse notificada formalmente do resultado, começaria a negociar com o Sinttia. Antes da votação, Morales dissera que pressionaria por melhores salários e condições e por mais apoio para os funcionários que enfrentam problemas no trabalho.

Fonte: Valor Econômico
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