07 maio Sob alta pressão
Sob alta pressão
Pandemia joga luz sobre distúrbios emocionais e impulsiona programas de apoio.
Nunca foram tantos os relatos de ansiedade, depressão e esgotamento por excesso de trabalho – o burnout – entre os profissionais brasileiros, mas esses casos não são exatamente uma novidade: já estavam em franco crescimento antes do desembarque do novo coronavírus no país, no fim de fevereiro de 2020. O que a pandemia provocou, segundo participantes do webinário “Saúde Mental”, organizado pelo Valor – em parceria com o jornal “O Globo”, as revistas “Época Negócios” e “Marie Claire” e a rádio CBN, com patrocínio da Amil -, foi a exacerbação do problema. Isso também obrigou as empresas a dar mais atenção ao assunto e acelerar medidas para a prevenção e tratamento dos crescentes distúrbios emocionais dos colaboradores. “Há 30 anos que esses casos estão gritando por socorro para ouvidos moucos”, resume o médico Leandro Garcia, gestor de saúde populacional da Amil.
Além de Garcia, participaram do debate a psicóloga Lisiane Bizarro, diretora da Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP); Carlo Pereira, diretor da Rede Brasil do Pacto Global da ONU; Paul Ferreira, professor de gestão estratégica e diretor do Centro de Liderança da Fundação Dom Cabral (FDC); e Stela Campos, editora de Carreira do Valor e mediadora do evento.
Pereira lembrou que apenas 18% das empresas mantêm algum programa interno de saúde mental, índice que deve – e precisa – crescer substancialmente para conter os casos atuais e futuros de desajustes psíquicos relacionados ao trabalho. “A solução de fato só virá quando a importância de zelar pela saúde mental dos colaboradores for internalizada pelas empresas, assim como já aconteceu com a questão da segurança física dos trabalhadores. A incidência de acidentes de trabalho caiu absurdamente nas últimas décadas, porque as empresas entenderam, de uma vez por todas, a necessidade de preveni-los, até para evitar prejuízos materiais”, afirma. E casos de estresse e depressão já são a segunda causa de pagamento de auxílio-doença, resultando em perdas anuais de US$ 1 trilhão às companhia, diz Pereira, com base em dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).
A psicóloga Lisiane Bizarro reforçou esse argumento, ao citar o que acredita serem os principais fatores desencadeadores de distúrbios mentais nas corporações: a imprevisibilidade (o profissional não sabe o que acontecerá consigo e com a empresa no contexto da pandemia) e a incapacidade de controlar a situação (quando o colaborador tem dúvidas sobre como preservar a própria saúde e a de sua família, por exemplo, ou como avaliar a qualidade do seu desempenho no home office, em que está distante de seus superiores). “Não é fácil identificar os distúrbios, mas o ideal é que a empresa lidere esse processo e ofereça o apoio necessário. O ambiente de trabalho pode ser protetor, em vez de opressor”, observa.
Para ajudar a dimensionar o problema, Paul Ferreira trouxe ao debate os resultados de recente pesquisa sobre os impactos da pandemia na saúde mental de profissionais, conduzida pela consultoria Talenses em parceria com a FDC. Dos 573 indivíduos que participaram desse estudo, 73,8% admitiram ter sido afetados emocionalmente no atual período de emergência sanitária, segundo o professor da FDC. “Os profissionais passaram a ser mais solicitados pelas chefias durante a pandemia, o que também aumentou o número de decisões que todos tiveram de tomar. Quem mais sentiu dificuldades foram as mulheres e os trabalhadores mais jovens”, relata.
Leandro Garcia, da Amil, chamou a atenção para a relação “muito forte” entre saúde e condição econômica. “É preciso lembrar que o home office está disponível apenas para uma parte pequena da população. Nós vemos a curva dos distúrbios mentais acompanhar a curva dos casos de covid-19, mas elas se concentram em públicos diferentes. Embora as doenças sejam desencadeadas por múltiplos fatores, percebe-se que o coronavírus atinge mais os trabalhadores pobres, enquanto os abalos emocionais ocorrem principalmente entre profissionais mais bem remunerados, que acumulam responsabilidades em excesso”, afirma.
Carlo Pereira destaca o movimento #MenteEmFoco, lançado recentemente pela Rede Brasil do Pacto Global em conjunto com a Sociedade Brasileira de Psicologia e a agência de comunicação e marketing InPress Porter Novelli, como uma iniciativa que pode ajudar as empresas a identificar os casos de distúrbios emocionais e encontrar possíveis soluções. “Nossa ideia é reunir, num espaço de livre acesso, as experiências empresariais mais bem-sucedidas no cuidado com a saúde mental, para que outras companhias possam se inspirar nelas.”
Todos concordam que a prevenção de transtornos emocionais sempre vai passar pela melhoria do ambiente de trabalho. “Os profissionais não buscam nas empresas apenas um salário e a possibilidade de ascender na carreira. Eles também veem na empresa a possibilidade de se socializar, de falar de assuntos variados, que não se limitem aos negócios, e de encontrar um propósito de vida. As empresas precisam se dar conta disso”, ressalta Pereira. Lisiane Bizarro é direta: “Que tipo de decisão toma um sujeito que trabalha 12 horas por dia e não tira férias? Ele está caminhando para o burnout, que representa o maior dos prejuízos, pois é um desperdício de cérebro”.
Para Paul Ferreira, um agravante trazido pela pandemia foi o esgarçamento na relação entre líderes e liderados no home office. “Muitos deixaram de receber o feedback do seu trabalho e ficaram inseguros. Os gestores também se perderam na organização das tarefas e passaram a acumular mais trabalho e a colocar mais pressão nos subordinados”, afirma.
Em relação a ações pontuais de bem-estar proporcionadas pela empresa, como o incentivo à atividade física e ao mindfulness, também há concordância de que se trata de iniciativas positivas, mas que passam longe da solução do problema. “Apesar de importantes, essas práticas são a cereja do bolo. Não podemos cuidar da cereja e esquecer do essencial, que é o bolo”, ressalva Leandro Garcia. “Também não basta incluir tratamentos psicoterápicos no convênio médico dos funcionários”, acrescenta Pereira.
Para Garcia, a estratégia de saúde mental das empresas não pode se abster de enfrentar o preconceito que muitas vezes impede os colaboradores de revelar seus problemas emocionais. “O funcionário deve se sentir à vontade para relatar suas dificuldades, daí a necessidade de haver um ambiente de diálogo e de confiança em torno dele. É preciso acolhê-lo, como procuramos fazer nos nossos teleatendimentos”, afirma o gestor da Amil.
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