04 abr ‘Taxa alternativa’ vê desemprego menor
‘Taxa alternativa’ vê desemprego menor
Estudo do J.P. Morgan aponta índice de 8% em dezembro de 2021, ante 11,1% do número oficial.

A ociosidade no mercado de trabalho brasileiro pode ser menor do que os dados oficiais do IBGE indicam, aponta um relatório recente do J.P. Morgan.
A partir de um artigo deste ano de Alex Domash e Larry Summers, ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos, o economista do banco Vinicius Moreira calculou uma “taxa de desemprego alternativa”, que refletiria o lado da empresa.
Com uma amostragem de 2007 a 2019 e projetando os números para os dois anos pandêmicos seguintes, Moreira estima essa taxa alternativa ao redor de 8% em dezembro de 2021, ante uma taxa de desocupação oficial de 11,5% – ambas mensalizadas e com ajuste sazonal. Incluindo 2020 e 2021 na amostra, a taxa alternativa segue abaixo da oficial, em 10%.
No artigo, Domash e Summers constroem a medida alternativa a partir de informações do lado da oferta de vagas, como taxas de desocupação e de participação no mercado, e do lado da demanda por emprego, com taxas de vacância dos postos e de desistência. “Normalmente, não olhamos assim. Oferta e demanda andavam muito próximas, mas veio a pandemia e elas perderam correlação”, explica Moreira.
O Brasil não dispõe de um acompanhamento frequente da taxa de vacância das vagas, mas Moreira usou, como aproximação, os “desligamentos a pedido” no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho. A proporção dessas demissões em relação ao emprego na folha é a “taxa de desistência” do Brasil. “Ajuda a medir a confiança do trabalhador na força do mercado, ou seja, se ele está confiante o suficiente para sair do seu emprego e procurar oportunidade melhor”, diz Moreira.
Ele pondera que a metodologia do Caged passou por revisões em 2020, que o cadastro abarca apenas o emprego formal – enquanto a taxa de desocupação do IBGE inclui os informais – e que o choque da covid bagunçou coletas e análises de dados em geral.
Mas resultados obtidos para o Brasil são semelhantes aos dos EUA, observa o relatório do J.P. Morgan, no sentido, por exemplo, de que a taxa de desistência é uma variável que explica melhor as dinâmicas salariais. “Se a pessoa está empregada e procurando emprego ao mesmo tempo, ajuda a puxar os salários para cima. A taxa de desemprego não capta isso”, exemplifica Moreira.
Além disso, o exercício ajuda a amarrar melhor as dinâmicas macroeconômicas no Brasil, diz ele. “Por um lado, tem inflação muito elevada, espalhada, persistente, e a política monetária está reagindo a isso. Por outro, tem essa taxa de desemprego grande, mostrando ociosidade elevada. Não casa.”
Segundo Moreira, a taxa de desemprego do lado da empresa sugere que as condições do mercado de trabalho no Brasil pioraram significativamente no início da pandemia, mas mudaram de direção em agosto de 2020. Enquanto isso, pelas estatísticas oficiais, a taxa de desemprego só começou a cair, bem devagar, em janeiro de 2021. O núcleo de inflação – medida que busca amenizar o efeito de itens mais voláteis -, por sua vez, também ficou bem baixo até agosto de 2020 e, a partir de então, começou a subir, de forma até rápida, diz Moreira.
“Enquanto o aumento da inflação no Brasil tem componentes globais – como preços de commodities e escassez de alguns bens industriais -, fatores domésticos também contribuíram para o salto da inflação cheia e do núcleo”, aponta o relatório do J.P. Morgan.
Bráulio Borges, economista-sênior da LCA Consultores e pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre), tem uma visão diferente. A taxa de desemprego com ajuste sazonal, diz ele, está em 11,3% no trimestre até fevereiro, abaixo dos 11,5% do fim de 2021 e de 2019 (pré-pandemia). As taxas de ocupação – relação entre as pessoas trabalhando e a população em idade ativa (14 anos ou mais) – e de participação – relação entre quem está empregado/procurando vaga e a população em idade ativa -, porém, ainda não voltaram ao pré-covid.
A “prova do pudim”, segundo Borges, é que os salários reais (descontada a inflação) também não se recuperaram. “O principal preço que regula oferta e demanda no mercado de trabalho está caindo, o que corrobora a visão de ociosidade maior”, afirma.
Além disso, ele cita que o Custo Unitário do Trabalho (CUT) – grosso modo, a razão entre o rendimento médio e a produtividade do trabalho, explica – caiu nos últimos dois anos. “A barganha do trabalhador é tão fraca que o salário não consegue nem acompanhar o ganho de produtividade.”
Diante de tantos choques, é difícil atribuir grande parte da inflação que o Brasil sente a uma dinâmica “super apertada” do mercado de trabalho, ainda que ele esteja respondendo rápido, diz o economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato Barbosa. “Esperava um Caged rodando a 100 mil neste início do ano, e não 200 mil. Realmente, está muito forte”, diz o economista do banco Vitor Vidal.
Honorato e Vidal observam, no entanto, que o segmento mais dinâmico no momento é o setor de serviços, que tende a ter salários médios mais baixos. “Eu acho que muito do mercado ainda não estar pressionado é porque esses empregos de maior qualificação não estão tendo uma retomada. A indústria não está empregando e ela paga mais”, diz Vidal.
Olhando à frente, o J.P. Morgan reconhece que há tendência de reversão para o mercado de trabalho, conforme os efeitos da política monetária restritiva chegam à atividade. “A forma como o emprego vai evoluir a partir de agora depende da atividade a partir de agora. O que posso dizer é que o ponto de partida parece mais apertado. Isso casa com a ideia de que os juros vão permanecer elevados por mais tempo ou a inflação vai continuar alta por mais tempo”, diz Moreira.
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