13 out Taxa de participação no emprego pode não voltar ao pré-pandemia
Taxa de participação no emprego pode não voltar ao pré-pandemia
Indicador tem melhorado nos últimos meses, mas avanço tecnológico é ameaça para retorno aos patamares de antes da crise.
Apesar de em trajetória de alta, a taxa de participação no mercado de trabalho brasileiro ainda está distante do nível pré-pandemia. Na avaliação de fontes do governo e especialistas, o indicador, que mostra o tamanho da força de trabalho ativa ou procurando emprego, deve continuar subindo, impulsionado pelo setor de serviços e pela reabertura da economia, mas não há previsão de quando voltará à normalidade.
O indicador mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), relativo ao trimestre de maio a julho, ficou em 58,2%, subindo pelo quarto mês consecutivo e distanciando-se do ponto mais baixo da série, atingido exatamente há um ano: 54,7%.

Antes da pandemia e da paralisação/redução que ela gerou em muitas atividades, a média histórica estava em torno de 61,5%.
Um interlocutor do governo destaca que a atual crise econômica, por suas especificidades decorrentes dos problemas sanitários, teve um comportamento diferente de outras no mercado de trabalho. Dessa vez, o baque no emprego foi mais forte no segmento de informais do que nos trabalhadores com carteira assinada, cujo impacto foi amortecido pelo programa de redução de jornada e salário e de suspensão de contratos (BEm).
Esse choque no emprego informal, fora do padrão histórico porque o setor de serviços parou mais suas atividades do que outros segmentos, afetou a taxa de participação fortemente, explica essa fonte. Com a retomada dos serviços, esse comportamento deve seguir melhorando. Na visão desse interlocutor, é improvável que tenha ocorrido uma redução estrutural na taxa, porque o Brasil é um país com muita pobreza.
Outra fonte do governo destaca que, apesar de ainda estar abaixo da média histórica, esse indicador tem tido recuperação forte. E, mais recentemente, tem subido ao mesmo tempo que o desemprego cai (no último levantamento houve a maior queda de um trimestre na série), fenômeno incomum que demonstraria a força do mercado de trabalho, diz a fonte. Para ela, a taxa de participação deve continuar subindo nos próximos meses junto com a queda do desemprego, devido à sazonalidade mais favorável ao emprego no segundo semestre.
O pesquisador sênior da área de Economia Aplicada do FGV Ibre Daniel Duque afirma que há quatro fatores principais que explicam a queda da taxa ao longo da pandemia: a covid-19 em si, que gerou um receio na população em circular; a destruição de vagas, já que com uma menor possibilidade de conseguir emprego as pessoas ficam menos propensas a procurar um novo posto, inclusive pelo custo envolvido; o auxílio emergencial, que funcionou como uma alternativa de renda nesse período; e a interrupção das aulas presenciais, que afetou mais as mulheres.
“A taxa agora está subindo porque as pessoas estão voltando a procurar emprego”, disse a pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Maria Andreia Lameiras. “A tendência é que ela vá se recuperando ao longo dos próximos meses porque a pandemia está mais controlada. Fora isso, a princípio, o auxílio emergencial termina neste mês.
Para o assessor do fórum das centrais sindicais e especialista em mercado de trabalho, Clemente Ganz Lucio, a queda na taxa de participação ocorreu por um movimento inédito de deslocamento de 10 milhões de trabalhadores para a inatividade. Ele destaca que desde o fim de 2020 a trajetória nesse indicador é de recuperação, refletindo a retomada do mercado de trabalho, com flexibilização de regras sanitárias e vacinação. “Outros voltam porque precisam pois estão sem nenhuma proteção.”
Para ele, a tendência é a retomada dos patamares históricos, com mais pessoas procurando emprego. Isso, explica, deve pressionar também as estatísticas de desemprego (que é calculada com base em quem procurou emprego), já que a retomada do nível de atividade que está em curso está aquém da necessária para absorver o volume de trabalhadores que devem procurar emprego.
No trimestre encerrado em julho, a taxa de desocupação ficou em 13,7%. “A tendência da dinâmica econômica, com o PIB sem crescer, é que se volte aos patamares tradicionais de taxa de participação, não há uma destruição do ponto de vista econômico. Mas estamos com grave problema que é certa estagnação com inflação. O crescimento deste ano apenas repõe o que perdeu no ano passado e no ano que vem deve voltar aos níveis de crescimento medíocre de antes da pandemia”, afirmou, destacando que, para melhorar o mercado de trabalho de forma mais substancial, o PIB deveria crescer em torno de 4% no próximo ano.
Para Daniel Duque, um dos impactos permanentes da pandemia deve ser justamente uma taxa de participação um pouco mais baixa do que a verificada antes da crise. “Tendo a crer que vai se estabilizar em um nível um pouco menor do que tinha no pré-pandemia, principalmente porque muitas pessoas agora estão há muito tempo sem trabalhado qualificado”, afirmou, citando ainda que, nesse período, muitas empresas adotaram tecnologias que passaram a poupar mão de obra. Uma parcela da população pode, portanto, desistir permanentemente de se recolocar.
Já pesquisadora do Ipea destaca que o aumento da pobreza e a desigualdade maior são algumas das consequências de uma taxa de participação mais baixa para o país. Nesse cenário, há um aumento de demanda, por exemplo, por programas de transferência de renda.
Clemente Ganz, por sua vez, comenta que, a taxa de participação varia entre os países e não dá para dizer que existe um padrão ideal. Mas ele aponta que políticas como creche universal e incentivos à inserção de mulheres e idosos no mercado e jornadas menores podem gerar uma elevação nesse indicador no futuro para níveis entre 65% e 70%, como em alguns países.
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