Total de pessoas que trabalham menos horas do que gostariam cresce 10% no RS

Total de pessoas que trabalham menos horas do que gostariam cresce 10% no RS

Publicado em 5 de outubro de 2021

Aumento no trabalho informal ou por conta própria em meio à busca por retomada do emprego está entre os fatores que explicam esse movimento, segundo especialistas.

O número de pessoas que trabalham menos horas do que gostariam voltou a aumentar no Rio Grande do Sul em meio à busca por retomada da economia. O total de pessoas subocupadas por insuficiência de horas trabalhadas cresceu 10,1% no segundo trimestre deste ano ante o mesmo período de 2020.

De abril a junho, 304 mil trabalhadores se encaixavam nessa situação no Estado — 28 mil a mais na comparação com o ano anterior. Aumento no trabalho informal ou por conta própria diante da crise econômica, do contrato por demanda e incerteza sobre o futuro ajudam a explicar esse cenário, segundo especialistas. Os dados fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) Trimestral, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O levantamento mais recente aborda dados do segundo trimestre deste ano.

Já a taxa de subocupação, que mostra o percentual de pessoas subocupadas dentro do total de ocupadas, teve crescimento mais tímido, passando de 5,4% para 5,7% no período. Ou seja, o número de pessoas que trabalham menos do que gostariam cresceu na esteira da ocupação no Estado.

O Coordenador da Pnad Contínua no Estado, Walter Rodrigues, afirma que o avanço do número de subocupados está ligado ao maior número de pessoas ocupadas por contra própria ou na informalidade. Parte desses trabalhadores conseguiu fonte de renda, mas em uma contexto de sobrevivência, segundo Rodrigues.

— Essas pessoas estão retornando com jornada de trabalho menor, o que gera um rendimento menor. Muitas também não estão conseguindo retornar naquela sua situação anterior de emprego. Retornam por conta própria, fazendo bicos ou outras atividades por questão de sobrevivência — explica o coordenador da Pnad  Contínua no Estado.

O levantamento do IBGE coloca nesse grupo pessoas que trabalham habitualmente menos de 40 horas semanais, mas gostariam de atuar mais. Trabalhos com redução de jornada e os populares “bicos” estão dentro dessa categoria.

O economista e professor da Escola de Negócios da PUCRS Ely José de Mattos também avalia que esse avanço da população subocupada no Estado ocorre na esteira do cenário econômico em meio à pandemia. O emprego começa a voltar, mas não com a força necessária para manter as pessoas ocupadas por mais horas, segundo o especialista. O economista destaca que incerteza sobre o comportamento da economia em um futuro próximo também influencia na redução de jornada.

— É uma dinâmica relativamente esperada dentro desse cenário de retomada de agora. A gente ainda está com uma retomada modesta. Por mais que tenha geração de ocupações formais e informais, a gente tem de olhar para esses números em um contexto de taxa de desemprego de 13% — destaca Mattos.

A economista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e especialista em mercado de trabalho Lúcia Garcia afirma que o mercado de trabalho no país está passando por um ajuste. Nesse movimento, o aumento no número de ocupação é marcado por precariedade e subutilização da mão de obra, segundo a economista:

— Esses postos de trabalho são precários e subutilizam a jornada, o tempo disponível do trabalhador e subremunera. Isso faz com que a estatística apareça como uma ocupação, mas são ocupações de baixa qualidade.

O professor de economia do trabalho da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Cássio Calvete avalia que o aumento da subocupação já vem ocorrendo há um bom tempo. Calvete atrela esse movimento ao avanço dos trabalhadores em plataformas, como motoristas de aplicativo, entregadores e outras atividades, e dos intermitentes, que não têm jornada e salários fixos.

— Essas duas formas de ocupação, o trabalho intermitente e o trabalho em plataforma, são as que mais crescem no Brasil. São formas precárias e que, muitas vezes, em grande medida, são de subocupação. A pessoa não consegue trabalhar a jornada desejada. É o que consegue. O que tem — afirma o professor da UFRGS.

O número de subocupados é um dos três grupos que compõem o indicador de subutilização da força de trabalho na Pnad Contínua. No segundo trimestre deste ano no Estado, as outras duas categorias, desocupados e força de trabalho potencial, recuaram, o que diminui a subutilização no Estado no período (veja mais abaixo).

Impacto na economia

O aumento da subocupação por insuficiência de horas trabalhadas no Estado acompanha o movimento nacional. No entanto, o crescimento desse indicador no país foi mais robusto. No Brasil, subiu de 5,6 milhões de pessoas, no segundo trimestre de 2020, para 7,5 milhões no segundo trimestre deste ano — avanço de cerca de 34%.

Especialistas ouvidos pela reportagem de GZH avaliam que a diminuição da subocupação vai ocorrer somente em um cenário de volta do emprego qualificado. Ou seja, com cargas horárias e rendimento melhores para a população trabalhadora.

O professor Cássio Calvete, da UFRGS, afirma que o aumento da subocupação tem impacto na economia do país. Essa situação junto de outros fatores, como instabilidade política e problemas de câmbio, freiam uma retomada mais forte, pois desestimula o consumo.

— À medida que tem um crescimento da mão de obra via subocupação, o rendimento médio cai. Isso é um dos motivos que faz com que a economia brasileira não cresça, porque as pessoas não tem dinheiro para consumir — pontua Calvete.

O professor da Escola de Negócios da PUCRS Ely José de Mattos afirma que a recuperação do emprego está ocorrendo, mas de maneira modesta e abaixo do necessário para recuperar a economia em níveis mais elevados.

— A subocupação por insuficiência de horas é um fantasma que vai ficar por aí durante um tempo. Porque a retomada vai ser lenta. O contexto hoje não é de explosão de demanda. É de retomada de uma atividade que não está normal há muito tempo. Como se eu estivesse me aproximando de uma normalidade — salienta Mattos.

Fonte: Gaúcha GZH
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