Trabalhador vê renda sob ameaça da inflação

Trabalhador vê renda sob ameaça da inflação

Publicado em 10 de maio de 2022

Melhora do rendimento sofre com piora do cenário dos preços.

 A piora das projeções de inflação neste ano pinta um cenário ruim para a recuperação do rendimento médio real do trabalhado brasileiro. Em um cenário de pouco dinamismo na economia, mesmo uma melhora do mercado de trabalho não deve ser suficiente para compensar a corrosão causada pela inflação ainda elevada neste ano, avaliam economistas consultados pelo Valor.

Em 2021, a renda média real habitual dos trabalhadores foi de R$ 2.587, queda de 7% em relação a 2020. No primeiro ano da pandemia, esse número teve alta de 4,4%, mas por uma questão de “composição”: mais trabalhadores de menor qualificação foram demitidos, o que elevou a média da amostra.

Na LCA, a expectativa é que a renda média habitual tenha alta nominal de 5,8% neste ano, mas queda real de 4%, um número que pode piorar ainda mais, a depender de como se comportarão os demais agregados da economia. “O dado é muito atrelado à forma como a inflação corrói o rendimento dos salários”, diz Bruno Imaizumi, economista da consultoria.

Ele pondera, por outro lado, que prefere acompanhar outra medida de renda das famílias, a massa de renda ampliada, que conjuga renda do trabalho com benefícios como INSS, Auxílio Brasil e medidas mais pontuais, como a liberação do saque do FGTS. “Este número mostra de forma mais clara o quanto as famílias têm para consumir.” Por essa métrica, a renda disponível crescerá 1,8% em 2022, ante queda de 6,5% em 2021.

Daniel Duque, economista do Ibre FGV, nota que a queda do poder de compra do rendimento dos trabalhos acontece em meio a outro movimento, o de aquecimento do mercado de trabalho. “O que pode acontecer é que os ganhos de emprego neste ano compensem a perda de renda real, de modo que a massa de rendimentos fique perto do zero a zero.”

Este movimento pode ser interessante, continua, porque a massa salarial registrou uma perda bem intensa no início da pandemia, mas se recuperou entre a segunda metade de 2020 e a primeira de 2021, antes voltar a apresentar sinal negativo, puxado desta vez pela queda da renda média.

Uma outra forma de enxergar a questão é comparar a renda média do trabalhador com o salário mínimo, diz o professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA-USP) Hélio Zylberstajn. O atual valor do salário mínimo (R$ 1212) equivale a 2,1 vezes a renda média habitual do trabalhador. Esta relação chegou a ser de 4,1 vezes no início de 2012, mas caiu paulatinamente até chegar a 3 vezes em 2016, dada a política de ganho real dos governos do PT. Daquele momento até 2020, houve uma estabilização, que refletia o fato de que tanto o salário mínimo como o rendimento do trabalhador passaram a acompanhar a inflação.

De 2020 para cá, no entanto, essa relação voltou a cair, só que desta vez porque o salário mínimo, por lei, tem as perdas com a inflação recompostas ao fim do ano, o que não foi acompanhado pelo rendimento do trabalho.

Zylberstajn nota ainda que um terço das renegociações salariais ocorre em maio, quando a inflação em 12 meses estará próxima de atingir seu pico. O IPCA de abril será divulgado amanhã, mas a prévia, o IPCA-15, bateu 12,03%, o maior patamar desde 2003. “A inflação é um ingrediente mobilizador do movimento sindical, mas na atual situação acho que esse componente é equilibrado pela falta de dinamismo do mercado.”

Na contramão, o economista da iDados Bruno Otoni, acredita que a remuneração do trabalhador tem chance de surpreender positivamente neste ano – ainda que não acredite em nenhum resultado chamativo.

“A questão é que o cenário para o rendimento hoje é mais nebuloso do que era no início do ano. Havia mais otimismo com a inflação, mas mais pessimismo com a atividade e o emprego. Com as surpresas positivas vindo desses dois últimos, é possível ficar mais otimista com o rendimento, sim”, diz. A iDados projeta uma taxa de desemprego caindo dos atuais 11,1% para 10,2% no trimestre encerrado em dezembro. “Claro, temos que pensar que estamos saindo de um patamar muito baixo, a renda atingiu a mínima histórica nos últimos meses. Qualquer melhora não deve ser muito robusta”, acrescenta, lembrando que questões como a desvalorização do real e a alta dos combustíveis também jogam contra o rendimento do trabalhador este ano.

Fonte: Valor Econômico
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