Trabalhar quatro dias por semana está mais perto de se tornar realidade no Brasil

Trabalhar quatro dias por semana está mais perto de se tornar realidade no Brasil

Publicado em 8 de setembro de 2023

O título chamou a atenção? Sim! Pelo menos para 21 empresas que aderiram ao experimento conduzido pela Four Day Week Global, uma comunidade sem fins lucrativos que realiza projetos-piloto como esse em todo o mundo, e pela brasileira Felicidade no Trabalho (https://www.reconnecthappinessatwork.com ). Os testes começaram na última terça-feira (5) e devem durar nove meses. A jornada será reduzida, mas o salário será o mesmo.

A produtividade também não pode cair. As etapas serão divididas em três meses de planejamento e outros seis dedicados à execução. Durante esse período, as empresas terão acesso a cursos, treinamentos, palestras sobre produtividade, diagnóstico organizacional das equipes e acompanhamento individualizado. Os objetivos são “melhorar a saúde mental e o equilíbrio entre vida pessoal e profissional dos funcionários”.

A iniciativa, inédita no Brasil, já foi testada na África do Sul, Nova Zelândia, Portugal e Reino Unido. Neste último, com mesma carga horária de trabalho do Brasil, de até 44 horas por semana, os resultados do projeto-piloto foram promissores. Segundo os organizadores, 39% dos participantes “se sentiram menos estressados”, e 54% consideraram “mais fácil conciliar vida pessoal e profissional”.

As áreas de atuação das 21 empresas inscritas no Brasil são advocacia, arquitetura, contabilidade, manufatura, desenvolvimento de softwares, publicidade, hotelaria, hospital, consultoria de recrutamento, alimentos, varejo, entretenimento e plataformas de tecnologia. Na única banca de advocacia inscrita – a Clementino e Teixeira Advocacia (de São Paulo e Belo Horizonte – a redução da carga horária será distribuída em dois dias.

“Nossa experiência será com uma semana que começa na segunda-feira à tarde e segue até a sexta-feira, às 12h. Não tiraremos um dia, mas sim dois períodos, porque temos audiências diariamente”, afirma Soraya Clementino, sócia do escritório de advocacia, composto por 12 funcionários.

Outros detalhes

  • “Esse é um projeto de negócios. A grande questão aqui é trabalhar melhor e de forma mais inteligente. Temos um desafio no Brasil porque estamos falando de um País em desenvolvimento” – afirma Gabriela Brasil, head de comunidade da 4 Day Week Global. Visando redesenhar a forma de trabalhar, a metodologia deve mudar conforme o quadro de funcionários e as atividades desenvolvidas.
  • A maioria das 21 empresas inscritas são pequenas e médias de 10 a 100 funcionários. Outras variam de 200 a 1.000 funcionários.
  • Em junho do próximo ano, uma rodada de avaliação de resultados será apresentada para que as empresas participantes decidam manter – ou não – a semana de quatro dias. “A proposta não é uma redistribuição da carga horária, é uma redução do trabalho recuperando esse período com o melhor uso das tecnologias e gestão do tempo. ”
  • A insegurança jurídica que algumas empresas sentem sobre a semana de quatro dias é outro fator que motivou a participação no projeto. “Muitas empresas se interessaram, mas não tiveram coragem de dar o passo por entender que o cenário no Brasil é inseguro, novo e não há uma legislação. Participando, teríamos mais condições de ajudar as outras organizações.”
  • Outra companhia que aderiu ao experimento é a Haze Shift. A consultoria de inovação, que adota o modelo 100% remoto, vai testar a redução de 20% da jornada para todos os funcionários, um total de 20. “Não temos medo de mudar. Em termos de propósito, queremos nos conectar com quem está chegando no mercado ou com quem está há muito tempo e esteja buscando essa carreira mais direcionada para a felicidade”, argumenta Maria Raicoski, head de operações da empresa.
  • O Hospital Indianópolis começará a testar a semana de quatro dias pelo departamento administrativo, com 20 colaboradores, para depois avaliar expandir para outras áreas do hospital. Desde 2022 a organização tem passado por um processo de modernização, incluindo a inserção de novas formas de trabalho. “A proposta inicial é eliminar a sexta-feira. Porém, é possível que aconteçam mudanças ao longo do experimento” segundo Eduardo Hagiwara, diretor-geral do hospital. “Temos desafios para conseguir migrar o teste para o departamento assistencial, que tem contato com o paciente e que trabalha com o corpo clínico. Então, vai demandar bastante estudo, discutindo para propor algo depois ao hospital inteiro” – arremata.

Outros países também resistiram aos 4 dias

Assim como o Brasil, outras nações realizaram testes com menos de 50 empresas cadastradas. Na visão de Renata Rivetti, esses países também não estavam preparados culturalmente para o experimento, mas as pesquisas comprovaram que a semana reduzida funcionou.

“Preparamo-nos começando com estudos, com dados e mostrando resultados. Não é uma fórmula mágica, mas é uma nova forma de trabalhar”, defende a coordenadora do projeto. Ela projeta que o Brasil pode seguir os passos dos Estados Unidos, que em julho deste ano completou um ano do projeto-piloto com 41 empresas, guiado pela 4 Day Week Global. O relatório verificou que a saúde mental e o equilíbrio entre vida pessoal e profissional dos funcionários apresentaram melhoras. Além disso, 100% das organizações participantes decidiram seguir com o modelo.

No Brasil, a Fundação Getúlio Vargas será responsável por mensurar de maneira qualitativa o sucesso da semana de quatro dias no país. Alguns dos parâmetros envolvem alocação de tempo e se as lideranças vão seguir o mesmo modelo. “Durante a pandemia, as pessoas ganharam tempo porque não se deslocavam. Mas tivemos um aumento da produtividade às custas de mais trabalho. Olhar como a alocação do tempo vai ser redistribuída e como se reaproximar da recuperação de atividades humanas são indicadores”, ressalta Paul Ferreira, professor de Estratégica e Liderança e vice-diretor do Núcleo de Estudos em Organizações e Pessoas da FGV/EAESP.

No cronograma do experimento brasileiro, a partir de novembro serão seis meses de testes. Em junho do próximo ano, as empresas vão ter acesso aos dados para escolherem manter – ou não – a continuidade da jornada reduzida.

Empresas participantes do projeto-piloto

Das 21 organizações que aderiram ao teste até o momento, somente sete autorizaram divulgar seus nomes.

As outras 14 atuam nos seguintes segmentos: arquitetura, manufatura, hotelaria, consultoria de recrutamento, alimentos, varejo, entretenimento e plataformas de tecnologia e inovação. Confira a relação:

– GR Assessoria Contábil (Rio de Janeiro);

– Hospital Indianópolis (Saúde, São Paulo);

– Abaeterno (Estúdio de produção editorial, São Paulo);

– Haze Shift Consultoria (Setor de Inovação e Transformação Digital, Curitiba);

– Oxygen (Hub de conteúdos em Inovação, São Paulo).

– Innuvem (Área de Tecnologia da Informação, Rio de Janeiro);

– Clementino e Teixeira Advocacia (Serviços jurídicos na área trabalhista, São Paulo/Belo Horizonte).

Fonte: Espaço Vital
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