Trabalho feminino e mais estudo impulsionam renda

Trabalho feminino e mais estudo impulsionam renda

Publicado em 17 de outubro de 2023

Estudo mostra potencial de ganho no rendimento do trabalho com instrução em níveis de Coreia do Sul e Chile e alta da participação das mulheres.

 Um amplo estudo sobre os principais desafios para a juventude no Brasil mede o quanto os investimentos na educação de crianças e jovens e a maior participação das mulheres no mercado de trabalho poderiam significar em rendimento adicional para os trabalhadores na vida adulta.

O trabalho usa como referências Coreia do Sul e Chile e simula diferentes cenários. Um deles estima que a geração de renda do trabalho para os brasileiros entre 25 e 54 anos poderia ser até 50,9% maior, considerando variados pré-requisitos, entre eles o aumento da escolarização no Brasil no ritmo observado no país asiático.

Para fazer o cálculo, o Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (Imds) considera mudanças em três frentes: a taxa de participação feminina no mercado de trabalho, a escolaridade – pelo parâmetro de média de anos de estudos da população entre 25 e 29 anos – e o nível de ocupação na faixa entre 44 e 54 anos.

No caso da escolaridade, a comparação é feita com Coreia do Sul e Chile. Os países são referência em educação, no mundo e na América do Sul, respectivamente, e tinham Produto Interno Bruto (PIB) per capita inferior ao brasileiro nos anos 1980, mas agora ultrapassaram.

Os pesquisadores do instituto calcularam que, se fosse igualada a taxa de participação de mulheres e homens no mercado de trabalho brasileiro, haveria um ganho de 17% na geração de renda do grupo de 25 a 54 anos, que é classificado por eles como “a idade de ouro” da população em idade ativa, ou seja, em que o trabalhador tem maior capacidade de trabalho.

Para ter uma ideia, o nível da ocupação (percentual de pessoas ocupadas na população em idade de trabalhar) das mulheres no Brasil era de 47,1% no segundo trimestre de 2023, segundo a Pnad Contínua, pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entre os homens, a taxa era de 66,8%. Quanto mais mulheres no mercado de trabalho, maior é a capacidade de geração de renda de uma economia.

Outra parte do cálculo considerou o cenário se fosse igualado o número de anos de estudos dos brasileiros entre 25 e 29 anos ao de sul-coreanos e chilenos, de forma gradual, no ritmo visto nesses países. No caso de uma mudança gradual da escolaridade brasileira para a situação da Coreia do Sul, o aumento na geração de renda na idade de ouro seria de 33%.

Na simulação que considera a escolaridade do Chile, o ganho ficaria um pouco menor, em 21%. Jovens mais escolarizados tendem a conquistar trabalhos mais bem remunerados, com maior contribuição de riqueza para país.

Por último, há a estimativa de um adicional de 0,9% da renda para o caso de equiparação do nível de ocupação na faixa entre 44 e 54 anos entre o brasileiro e o sul-coreano e o chileno. O trabalhador brasileiro tende a sair antes do mercado de trabalho por ter uma população menos instruída, que ocupa principalmente postos de trabalho que exigem força física.

“Pelas nossas contas, levariam 15 anos para a escolaridade no Brasil se igualar à do Chile e 30 anos para se igualar à da Coreia, se fosse considerada a mesma velocidade de transição desses países. É um longo período, então há urgência. A gente tinha tempo porque havia muita criança, mas isso mudou”, afirma o diretor-presidente do Imds, Paulo Tafner.

A motivação do estudo é a preocupação com o envelhecimento da população brasileira. “Ficaremos velhos antes de enriquecermos?” é a pergunta presente no trabalho e que alerta para o risco de se desperdiçar o chamado bônus demográfico. Até o fim do mês, o IBGE divulga os dados atualizados da população brasileira por faixa etária, a partir do Censo Demográfico 2022.

“O Brasil tem hoje a última geração numerosa de jovens, é o último grande potencial de crescimento econômico. Depois, a força de trabalho vai diminuir muito. Se não investirmos pesado em educação agora, teremos uma mão de obra que gera pouca renda. E aí o país não vai ficar rico nunca”, diz ele, para quem o estudo aponta a produtividade perdida por causa da baixa capacitação da juventude brasileira.

Tafner reconhece algum aumento de escolaridade nos últimos anos, mas muito devagar e aquém do necessário e do registrado por outros países, o que resulta em uma mão de obra pouco qualificada. Entre brasileiros de 25 a 34 anos, 28,6% não completaram o ensino médio, ante 12,4% no Chile e 2% na Coreia do Sul. A parcela dos que completaram o ensino superior é de 23% no Brasil, de 40,5% no Chile e de 69,3% na Coreia do Sul, mostra o estudo.

“É angustiante. O aprendizado de português e matemática está estacionado há anos. O jovem chega com déficits de aprendizados no ensino médio e isso só piora, temos taxas altíssimas de evasão”, afirma a professora do Insper Laura Muller Machado, com estudos na área de educação e desenvolvimento, e que classifica o ensino médio como “o gigantesco desafio da educação brasileira hoje”.

No Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), brasileiros de 15 anos alcançaram 413 pontos em leitura em 2018 (último dado disponível), ante 412 pontos de 2019. Metade (50%) dos alunos está no nível 2 ou mais de proeficiência, frente à média de 77% dos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Em matemática, a classificação foi de 384 pontos em 2018, até abaixo dos 386 de 2009. Cerca de 32% dos estudantes brasileiros conseguiram nível 2 ou mais, para uma média de 76% da OCDE.

Ao chegar com déficit de aprendizado no ensino médio, afirma Machado, o aluno tem mais dificuldades de acompanhar os estudos e enfrenta, ao mesmo tempo, a competição do mercado de trabalho. “O jovem pensa mais no hoje, não enxerga tanto o futuro. Se a escola está ruim, difícil, aquela renda do trabalho atrai mais. Ele não vê valor em continuar na escola se não está acompanhando”, afirma.

Foi o que aconteceu com Matheus Gomes Meneses, de 25 anos, morador da favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Ele largou os estudos no primeiro ano do ensino médio, já com 19 anos, depois de repetir duas vezes de ano, e já trabalhando.

“Eu estudava à noite porque tinha repetido muito. Quando comecei a trabalhar, deixei a escola. Era muito esforço”, diz ele, que não pensa em voltar a estudar. Hoje, ganha cerca de R$ 700 por semana no trabalho de segunda à sábado em feiras livres do Rio. “Aqui na feira a gente ganha mais, lá fora está difícil, o pessoal ganha só um salário mínimo”, conta Meneses.

“A gente tinha tempo porque havia muita criança, mas isso mudou”

Casos como o dele criam o que o professor da PUC-RJ Marcio Gold Firmo chama de “jogo de desencontro”: um jovem que chega ao mercado de trabalho com baixa qualificação de um lado e empresas que exigem qualificação e experiência do outro.

“É um problema enorme no ensino médio, com jovens que não concluem no tempo certo ou abandonam no meio. Isso cria um fluxo de gente pouco preparada entrando no mercado”, diz, lembrando também a influência ainda significativa da gravidez na adolescência para o abandono escolar.

Aprovado em 2017, o novo ensino médio entrou em vigor em 2022, após a pandemia. Foi alvo de críticas por problemas na implementação e, em 2023, seu calendário foi suspenso pelo novo governo. Há um projeto de lei pronto, segundo o Ministério da Educação, com ajustes na reforma do ensino médio, aumento de carga horária de disciplinas tradicionais e manutenção dos chamados itinerários, trazidos com a reforma, ainda sem data para ser votado.

Na cartilha para a melhoria da qualidade da educação, especialistas afirmam que não há espaço para “balas de prata” nem “milagres”. Um dos pontos de partidas deveria ser o estudo e a replicação de metodologias usadas por Estados que se destacam em avaliações de ensino, defende Laura Muller Machado, como Ceará, Pernambuco e Goiás.

“O Brasil é muito maravilhoso. Temos Estados com desempenho completamente dentro do esperado. É preciso descobrir o que esses Estados fazem para replicar para todos, não é? A fórmula inclui ensino de conteúdo, avaliação, reforço, mais avaliação. E com reforço na formação do professor”, diz ela, que é a favor, ainda, de aumentos de salários de professores condicionados a resultados dos alunos e das escolas.

Marcio Gold Firmo cita três princípios comuns às redes de ensino que se destacam no país: liderança, priorização e continuidade; visão sistêmica, com foco na aprendizagem e gestão baseada em dados, evidências e melhores práticas; e pro-atividade na procura por parcerias (públicas e/ou privadas) e inovações. “Não tem bala de prata. Esses lugares que conseguiram revoluções na educação agiram em diferentes frentes”, diz. O economista também se mostra a favor do programa do governo, em fase final de construção, de bolsas de permanência na escola para alunos do ensino médio, além de uma poupança para saque na conclusão do curso.

Fonte: Valor Econômico
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