Trabalho feminino é tema da redação do Enem 2023 e gera debate

Trabalho feminino é tema da redação do Enem 2023 e gera debate

Publicado em 6 de novembro de 2023

Especialistas elogiam importância de debater o tema entre candidatos à universidade.

O tema da redação do Enem trouxe um misto de surpresa e satisfação a especialistas ouvidas pelo Valor. Os quase 4 milhões de inscritos para o Exame Nacional de Ensino Médio precisaram discorrer sobre “Desafios para o Enfrentamento da Invisibilidade do Trabalho de Cuidado Realizado pela Mulher no Brasil”.

 A professora Finanças da FGV EAESP e coordenadora do Centro de Estudos em Finanças (FGVcef), Claudia Yoshinaga, destacou o alcance da prova e a importância de a questão ter se tornado tema de debate entre candidatos a cursos universitários. “Fiquei feliz de ver que esse tema foi escolhido para uma prova que acaba tendo bastante repercussão”, disse. “É um bom sinal”, complementou.

A professora da FGV classificou o tema como oportuno por estar ligado às pesquisas da vencedora do Nobel de Economia neste ano, Claudia Goldin. “O tema está bastante inserido nessa temática vencedora do Nobel, ou seja, o quanto no mercado de trabalho há um viés negativo em termos de remuneração, um ‘gap’ de salários e de promoção, que acabam prejudicando a carreira das mulheres”.

A professora da Escola de Relações Internacionais da FGV (FGV-RI), economista e presidente da Sociedade de Economia da Família e do Gênero (GeFam), Lorena Hakak, lembrou que, antes mesmo da vitória de Goldin, o tema do trabalho “invisível” que costuma sobrecarregar a maior parte das mulheres já começava a ganhar evidência devido à pandemia. “Começaria com um pouco antes do Nobel deste ano. Essa questão do cuidado já vinha ganhando importância, mas ganha um fôlego extra com a pandemia. O isolamento trazido pelo combate à covid chamou a atenção para a sobrecarga que isso causou nas mulheres, que tinham um trabalho formal, mas também outra carga com cuidados de filhos, parentes ou afazeres domésticos, porque a mulher é a principal cuidadora.”

Segundo a economista, um dos grandes desafios é reforçar a discussão sobre como reduzir essa sobrecarga. “Tem vários desafios, que começam com a mudança da norma social ou como a gente poderia pensar numa transição?”, disse. Um deles é “tentar equalizar a divisão dos cuidados entre homens e mulheres e diminuir a sobrecarga delas”.

A presidente do GeFam lembrou que “cuidado muitas vezes não é visto como trabalho”. Mas, acrescentou, “a partir do momento em que se discute que é um trabalho, torna-se importante e precisa ser valorizado”.

“É invisível, por exemplo, quando alguém chega em casa e a comida está pronta. Alguém fez aquela comida, ficou duas ou três horas cozinhando, alguém alocou tempo para cuidar de uma criança. Quando vemos uma criança bem nutrida, saudável e feliz, tem alguém cuidando dela e toda a sociedade acaba sendo beneficiada.”

Yoshinaga lembra que um dos prejuízos historicamente ligado às carreiras das mulheres vem do fato de a criação dos filhos ficar muito mais na mão delas. A pesquisadora do FGVcef também levantou a questão da licença natalidade. “A gente tem no Brasil uma licença que funciona de forma mais extensa, com período de até seis meses, para a mãe, quando tem um filho. Isso ão vale para o pai. Estudos mostram que esse período bem mais longo acaba prejudicando a carreira delas. Uma proposta que alguns países têm começado a adotar é tornar essa licença simétrica, ou seja, mesmo no caso dos homens, quando eles têm filhos, a licença ser de igual duração.”

“A questão do cuidado vai aos filhos e se estende também aos pais”

Conforme Yoshinaga, “hoje quando uma mulher vai ser contratada, há casos absurdos quando se pergunta se ela pretende ou não engravidar”. Segundo ela, “mesmo quando isso não é explícito existe uma inferência, um prejuízo que essas mulheres podem ter de o empregador já considerar um risco de essas mulheres se ausentarem por um tempo maior por conta de maternidade.”

A acadêmica lembra que “as mulheres são penalizadas por uma questão que envolve a sociedade como um todo”. De acordo com Yoshinaga, “criar crianças vai impactar a sociedade como um todo e trazer essa discussão é muito importante”.

A pesquisa de Goldin, ressalta Yoshinaga, mostra ser necessária uma ação conjunta de poder públicoe setor privado para conseguir reduzir ou eliminar esses problemas. “Uma primeira parte viria de políticas públicas”, diz. “Recentemte tivemos sancioada uma lei que torna obrigatória a paridade de salários de homens e mulheres no mesmo cargo ou função. É uma ideia boa, há uma sinalização importante, mas existe uma questão que nem sempre produzir uma lei seja o jeito mais efetivo de se garantir essa igualdade. No fim, a lei diz que duas pessoas que estão no mesmo cargo têm de receber o mesmo salário. No entanto, os homens costumam ser promovidos mais vezes ou ter mais chances de ser promovidos.”

Já a especialista em economia de gênero e família ressaltou haver outra questão emergente ligada ao envelhecimento da população. “Há, atualmente, mulheres que cuidam não só dos filhos, mas também dos pais idosos. São as mulheres da chamada ‘geração sanduíche’. Ou seja, tem muito mais trabalho.”

A questão de dividir o trabalho de forma a não sobrecarregar as mulheres vai se tornando cada vez mais presente, avaliou Hakak. “As companhias acabam premiando longas jornadas de trabalho em horários específicos. Se há mulheres que têm de cuidar dos filhos, de parentes e da casa, acabam menos beneficiada por essa premiação. Se a gente conseguir uma transição na qual as empresas passem a premiar mais trabalhos flexíveis, isso diminui essa diferença.”

Fonte: Valor Econômico
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