Trabalho por aplicativo tem jornada longa e renda menor

Trabalho por aplicativo tem jornada longa e renda menor

Publicado em 26 de outubro de 2023

Pesquisa do IBGE mostra que pagamento proporcional por tempo trabalhado é menor e atividade tem média de 46 horas semanais.

Um estudo inédito do IBGE mostra que pessoas que usam plataformas digitais para trabalhar têm jornadas mais longas que os demais e ganham menos por hora de trabalho.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua Teletrabalho e trabalho por meio de plataformas digitais 2022 aponta a extensão desse trabalho para o mercado hoje: 1,49 milhão de pessoas exerciam atividade profissional por meio dessas plataformas em 2022, o que correspondia a 1,7% das 87,2 milhões de pessoas ocupadas no setor privado.

A jornada média de trabalho foi de 46 horas por semana, considerando o trabalho habitual, 6,5 horas a mais que os demais ocupados do setor privado (39,5 horas por semana). Já a renda média por hora foi de R$ 13,30, quase 10% (9,8%) a menos que os trabalhadores que não usam as plataformas para exercer seu trabalho (R$ 14,60). Na análise por grau de instrução, a diferença de rendimento médio por hora é maior entre aqueles com superior completo. O rendimento médio por hora daqueles que trabalham por aplicativo neste grupo era de R$ 22,7 em 2022, o que significa 35,2% a menos que os R$ 30,7 dos demais trabalhadores.

Mais da metade (57,9%, ou 862 mil) do 1,49 milhão desses trabalhadores está na região Sudeste. Também há uma predominância dos trabalhadores que atuam no transporte particular de passageiros (não inclui aplicativo de táxi), que são 47,2%, ou 704 mil pessoas. O segundo segmento com maior penetração é o de entrega de comida e produtos, com 589 mil pessoas, ou 39,5% do total.

Em seguida, há dois tipos de aplicativos com presença semelhante: 207 mil pessoas (13,9% do total) nos de táxi e 197 mil pessoas (13,2% do total) nos aplicativos de prestação de serviços gerais ou profissionais, como GetNinjas, Parafuzo e 99freela. A soma ultrapassa 100% porque alguns trabalhadores podem atuar através de mais de um tipo de aplicativo. Os aplicativos de hospedagem, como AirBnB, não foram incluídos no levantamento.

Mais de 80% dos trabalhadores dos segmentos de transporte particular de passageiros e de entregas citam dependência em relação aos aplicativos no que se refere ao valor a ser recebido, aos clientes ou à forma de recebimento do pagamento.

Renda média por hora é 9,8% menor para pessoas que trabalham via plataformas

A pesquisa do IBGE também traz informações sobre trabalho remoto e teletrabalho: 9,462 milhões de pessoas (9,8% do total de pessoal ocupado) trabalhavam pelo menos uma vez por semana em trabalho remoto, ou seja, em local diferente do padrão. A classificação considera não só trabalho no domicílio, mas também locais como um café ou em um ambiente de coworking.

Entre os que fazem trabalho remoto, há um subgrupo, o do teletrabalho, que contempla as pessoas que recorrem a algum dispositivo eletrônico para executar seu trabalho, como um computador ou celular. Eram 7,299 milhões de trabalhadores em teletrabalho no Brasil em 2022, segundo o IBGE. O contingente corresponde a 7,7% dos trabalhadores ocupados no país.

Os dados da pesquisa mostram que a proporção de mulheres ocupadas que realizaram teletrabalho (8,7%) em 2022 era superior à dos homens (6,8%). Quando considerado o recorte por cor ou raça, o percentual de pessoas brancas em teletrabalho (11%) era maior que os dos pretos (5,2%) e dos pardos (4,8%).

As diferenças são ainda são mais intensas no recorte por grau de instrução. Entre as pessoas ocupadas sem instrução ou com fundamental incompleto, apenas 0,6% era teletrabalhador no período de referência, os 30 dias anteriores à pesquisa. No topo da escolaridade, no grupo com ensino superior completo, quase um quarto (23,5%) realizou pelo menos um dia de teletrabalho no mês anterior ao questionário.

Há informações, ainda, sobre rendimento: a renda média das pessoas que fazem teletrabalho pelo menos uma vez por semana é quase duas vezes maior que a dos demais trabalhadores. Esses trabalhadores receberam R$ 6.479 em média por mês, enquanto a renda dos demais era de R$ 2.398. A diferença entre os dois rendimentos foi R$ 4.081.

“Essa diferença de rendimento não indica que seja uma consequência [que quem faz teletrabalho ganha mais que os demais], mas sim que o perfil predominante das pessoas que fazem teletrabalho é o de quem tem mais rendimento. Há uma correlação”, explica o responsável pela pesquisa, Gustavo Geoquinto Fontes.

Fonte: Valor Econômico
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