08 nov Vacina e serviços balizam volta desigual do emprego
Vacina e serviços balizam volta desigual do emprego
Retomada é mais rápida no Nordeste e mais lenta no Sul, aponta Ibre.
Depois de sofrerem impacto desigual da pandemia sobre o mercado de trabalho, as regiões brasileiras vêm se recuperando também de maneira assimétrica. Enquanto o Nordeste foi o mais atingido e se recupera mais rápido, por exemplo, o mercado de trabalho no Sul foi menos impactado e tem tido um processo de normalização mais demorado. Economistas atribuem esse quadro ao perfil econômico de cada região, que acaba influenciando na proporção de trabalhadores informais, e à velocidade das campanhas de vacinação.
Segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) com base em microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), na região Nordeste o total de pessoas ocupadas caiu 14,5% no segundo trimestre de 2020, em comparação ao segundo trimestre de 2019. No segundo trimestre de 2020 cresceu 8% e está hoje 7,6% abaixo do patamar pré-pandemia.

Os dados, compilados pelos economistas Janaína Feijó e Paulo Peruchetti, mostram que a região Sudeste foi a segunda mais atingida e viu a população ocupada cair 11,5% no segundo trimestre do ano passado e a se recuperar 5,4%. O número de pessoas ocupada no Sudeste, contudo, ainda está 6,7% abaixo do nível antes da crise de covid-19.
No Centro-Oeste, terceira região mais atingida, o total de ocupados caiu 9,5% com a pandemia, teve recuperação de 5,3% no segundo trimestre deste ano, e hoje está 4,7% abaixo do nível pré-covid.
O Norte viu o número de ocupados cair 6,8% com a crise de covid-19, mas recuperou-se mais rápido e hoje esse total está 1,1% abaixo do patamar do segundo trimestre de 2019. O Sul foi a região menos atingida e a que mais demora a se recuperar. A população ocupada caiu 5,7% com a pandemia, recuperou-se 1,3% e hoje está 4,4% menor do que antes da covid.
O levantamento, publicados no último Boletim Macro do FGV Ibre, mostra que a recuperação vem sendo assimétrica também quanto à desocupação. A taxa de desemprego no Nordeste chegou a 18,2% no segundo trimestre deste ano – último dado disponível -, ante 14,6% no pré-pandemia.
Em contraste, o desemprego no Sul está em 8,2% ante 8,0% antes da crise. No Sudeste, o desemprego está em 14,5%, 2,1 pontos percentuais acima da taxa antes da chegada do coronavírus.
Segundo Paulo Peruchetti, o perfil econômico de cada região influi na retomada. Por exemplo, uma região onde o setor de serviços é relevante e a reabertura demorou mais por conta da vacinação, terá recuperação do mercado de trabalho mais lenta.
“Se o emprego no setor de serviços for relativamente importante no total de emprego daquele Estado e a recuperação desse setor foi mais intensa, acaba impactando no emprego de forma agregada naquela região”, afirma.
Esse argumento ajuda a entender o contraste de recuperação entre o Nordeste e o Sul, argumenta Bruno Ottoni, economista da consultoria iDados.
“Essas regiões estão em pontas opostas no que diz respeito à informalidade. O Sul tem taxa de informais relativamente baixa e o Nordeste, alta. Com isso, é de se esperar que o Nordeste tenha sofrido mais, com maior perda da população ocupada que o Sul”, afirma Ottoni, ao lembrar que a pandemia levou o Nordeste a ter a maior queda dos ocupados e o Sul, a menor.
A proporção de trabalhadores em ocupações informais era de 56,9% no Nordeste e de 29,1% no Sul em 2019, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Isso coincide com uma renda per capita maior no Sul e menor no Nordeste, acrescenta.
“É natural, portanto, que a região que mais se recupere hoje seja o Nordeste, já que os trabalhadores informais foram os que mais sofreram e agora são os que voltam com mais força. O Sul, por outro lado, sofreu menos, mas está tendo uma recuperação mais lenta”, diz.
A questão da informalidade explica em parte também a variação da taxa de desemprego, afirma Ottoni. “O Nordeste já tinha taxa de desemprego alta e isso piorou com a pandemia, e a diferença entre a taxa de desemprego das duas regiões ficou maior”, argumenta.
Segundo o levantamento do FGV Ibre, desde 2012 o Nordeste tem apresentado taxas de desemprego mais elevadas, enquanto o Centro Oeste e o Sul têm registrado as menores.
“No segundo trimestre de 2021 essas diferenças foram acentuadas”, afirmam Janaína e Peruchetti no levantamento. Por outro lado, observam os economistas, a taxa de desemprego na região Sul já alcançou o nível pré-pandemia.
Contribuiu para isso a campanha de vacinação contra a covid-19 na região Sul. No fim do segundo trimestre deste ano, o Sul era uma das regiões onde a vacinação mais havia avançado, segundo dados do consórcio de veículos de imprensa. “Durante a pandemia, os entes federativos tiveram autonomia para poder ditar medidas de restrição e tiveram seus próprios cronogramas de vacinação. Isso influenciou a volta do mercado de trabalho”, afirma Janaína.
“Se um Estado demorou três meses para chegar a 50% de vacinação da população ocupada, é esperado que demore mais para flexibilizar restrições. A heterogeneidade na vacinação e na flexibilização contribui para entender as diferenças dessa recuperação.”
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