“Vejo no futuro um Direito do Trabalho redesenhado, mas com seus princípios intactos”, diz presidente Carmen Gonzalez em congresso da Fecomércio

“Vejo no futuro um Direito do Trabalho redesenhado, mas com seus princípios intactos”, diz presidente Carmen Gonzalez em congresso da Fecomércio

Publicado em 25 de outubro de 2021

A Federação do Comércio de Bens e de Serviços do Estado do Rio Grande do Sul (Fecomércio-RS) realiza em Torres, até sábado (23), o 5º Congresso de Relações Sindicais e do Trabalho. O evento foi aberto na noite de quinta-feira (21), com uma palestra da presidente do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT-RS), desembargadora Carmen Izabel Centena Gonzalez.  A magistrada falou sobre o futuro do trabalho e da Justiça do Trabalho. “São duas indagações que estão intimamente ligadas. Antecipo que não tenho respostas, mas algumas ponderações”, disse ela, logo no início da fala.

Conforme a desembargadora, as modificações no mundo do trabalho são perceptíveis no nosso dia a dia. As plataformas digitais conectam prestadores de serviços e consumidores diretamente. Fala-se na indústria 4.0, ou mesmo 5.0. Inúmeras profissões desapareceram e novas estão surgindo. “A relação de emprego, como conhecemos, acabará?”, questionou Carmen, que logo respondeu: “Isso só o tempo dirá. Mas há algo que jamais poderemos esquecer: a prestação do trabalho é indissociável do ser humano que o presta. Essa centralidade do ser humano não pode ser olvidada”.

A magistrada lembrou que não se pode pensar no trabalho como uma mercadoria, um mero custo de produção. “Há, na pessoa que o presta, uma natural dignidade que precisa ser considerada. E isso, senhoras e senhores, é o cerne do Direito do Trabalho, aplicável a toda e qualquer relação de trabalho. Não importa o tipo de relação trabalhista, deve ser garantido um mínimo digno de existência aos trabalhadores”, salientou.

Na segunda parte da palestra, a presidente falou sobre a atuação da Justiça do Trabalho. Destacou que uma estrutura judiciária própria para julgar a matéria não existe apenas no Brasil, mas também em diversos países, como Alemanha, Espanha, Reino Unido, Suécia, Austrália e França. “E mais, jurisdição trabalhista especial há em praticamente todos os países civilizados, inclusive nos Estados Unidos, embora a lenda urbana diga que não existe na maior economia mundial e que no Brasil seria uma espécie própria, como a jaboticaba”, acrescentou.

A presidente informou que, no ano de 2020, em plena pandemia, a Justiça do Trabalho brasileira recebeu quase 3 milhões de processos novos. Só no Rio Grande do Sul foram quase 226 mil novos processos. Explicou que o norte da instituição é buscar, se possível, a solução dos conflitos por meio do acordo.

A magistrada também chamou atenção para o equilíbrio nas decisões. Não há, segundo ela, favorecimento apenas de uma parte, como às vezes se alardeia. E demonstrou essa realidade com números: em 2020, 10% dos processos solucionados foram totalmente improcedentes, com nenhum pedido acolhido; 31% foram julgados parcialmente procedentes; e somente 8% totalmente procedentes. Os demais foram solucionados por acordo. “Esses dados demonstram que a Justiça do Trabalho está, na verdade, em busca da verdadeira justiça, isto é, cuidando de deferir a cada um o que é seu, garantindo a centralidade do ser humano que trabalha”, comentou.

Por fim, a presidente destacou as vantagens de se ter uma justiça especializada, com magistrados e servidores altamente especializados e capacitados no ramo do Direito do Trabalho. “A ciência do Direito é por demais ampla, e a especialização é uma tendência. Não por mero capricho, mas porque a nossa legislação é de tal modo complexa que essa é a única forma efetiva de compreender os mais diversos ramos do Direito”, explicou.

Para a desembargadora, não é possível imaginar uma Justiça do Trabalho muito diferente ou menor que a de hoje. “Ao contrário, vejo uma Justiça do Trabalho cada vez mais atuante na garantia da dignidade da pessoa humana, e que tem solucionado não apenas conflitos individuais mas coletivos, evitando greves e paralisações. Vejo no futuro um direito do trabalho redesenhado, mas, ainda assim, com seus princípios intactos”, declarou.

Ao final, Carmen afirmou que é plenamente possível empreender e, ao mesmo tempo, garantir empregos dignos, com salários justos. A solução, segundo ela, está na gestão eficiente, e não na desregulamentação. “Precisamos do apoio da classe trabalhadora e da classe patronal  para que a Justiça do Trabalho continue cada vez mais sendo chamada para resolver os conflitos entre o capital e o trabalho, sempre respeitando as partes e procurando a melhor solução para os impasses, porquanto temos verdadeira vocação para resolvê-los”, concluiu.

Fonte: Tribunal Regional do Trabalho 4ª Região
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